quinta-feira, 1 de maio de 2014

O cinismo continua


Quando escrevi o meu post anterior ainda não tinha ouvido a orquestra de ministros que veio anunciar o DEO (documento de estratégia orçamental).

Afinal a estratégia é sempre a mesma: tirar daqui e pôr ali, sempre aos mesmos tansos indefesos. Mas com aquele requinte cínico de atiçar as vítimas umas contra as outras.

A conferência de imprensa dos ministros parecia uma récita de jograis. Dizia um (ou uma, não me lembro bem e não tenho estômago para tornar a ouvir):
- Vamos reduzir o corte que fizemos nas pensões superiores a mil euros. Vai ser definitivo, deixa de chamar-se contribuição extraordinária de solidariadede e passa a ser simplesmente a contribuição de sustentabilidade. 
E baba-se de contentamento com a sua própria criatividade, como quem diz: Estão a ver, como somos bonzinhos; cortamos para sempre, mas cortamos menos!
Acrescenta outro, pressuroso:
- São 38 milhões que deixamos ir por água baixo para agradar ao tribunal constitucional...
 Agora é a vez doutro artista:
- Mas não pensem que somos irresponsáveis a ponto de desequilibrar o orçamento. Sabem onde vamos buscar o dinheiro? Aos que trabalham: mais 0,2% da TSU dos trabalhadores; e a todos os consumidores: 0,25% de IVA.

Os ministros-artistas fazem uma pausa e um riso sardónico. Estão à espera de que os jornalistas percebam as novidades. E que novidades! Todos os que trabalham, incluindo os que ganham o salário mínimo, vão contribuir com uma parte do seu salário e do IVA das suas compras  para aliviar o sacrifício dos que têm reformas superiores a mil euros.

O subentendido é evidente: Estáveis com tanta peninha dos velhos! Pois aí tendes! Agora não vos queixeis! Ou pensáveis que íamos mexer no precioso dinheiro dos empreendedores? A esses já baixámos o IRC e vamos dar outras benesses.

Na mesma tarde desta conferência de imprensa, o presidente distribuía em Belém condecorações a um seleto grupo de atuais e antigos serventuários. Um conclave cavaquista que serviu para mais um sermão sobre a necessidade de consenso quanto aos sacrifícios do povo e as facilidades às empresas.

A bom entendedor...

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