A minha geração tem contas velhas com o Dia de Portugal. Na nossa juventude era o Dia de Camões, de Portugal e da Raça. Um arremedo à paranóia da depuração rácica empreendida tragicamente pelo Hitler.
Claro que ninguém percebia que raio era isso de raça portuguesa. Há milénios que somos uma mistura dos muitos povos que chegaram a esta ponta da Europa e aqui se miscigenaram.
Depois do 25 de Abril parecia-me lógico simplesmente encolher o nome para "Dia de Portugal", mas vingou a designação infindável de Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Percebe-se a boa intenção. Salazar aproveitou-se habilmente do culto da primeira geração republicana por Camões e promoveu o nosso épico a ícone das glórias pátrias. Suprimir a referência explícita a Camões poderia gerar um sentimento de orfandade simbólica num período particularmente crítico da identidade nacional.
Passados trinta anos já quase nos esquecemos e as novas gerações nem o sentiram. Mas convém lembrar que o 25 de Abril levou ao termo das guerras coloniais e ao reconhecimento da independência dos povos sob administração portuguesa. Ora o ciclo colonial durou cinco séculos. O seu encerramento não foi apenas traumático para os colonos afetados. Atingiu também profundamente a representação secular de pátria em que fomos moldados. Embora fosse um império de pés de barro, não deixou de ser um império que se desmoronou.
Naquela época muito refletiram os nossos filósofos e sociólogos sobre os efeitos de tal "amputação" na vivência do "ser português". A esta distância podemos dizer que nos voltámos do Atlântico para a Europa e continuámos como antes a sentir este velho retângulo como um ancoradouro seguro de muitas partidas e chegadas. A decisão de manter a Festa Nacional vinculada a Camões tem muito a ver com esta reflexão. Camões é o modelo mais perfeito do emigrante fascinado pela identidade portuguesa; tanto mais português quanto mais conhecedor do mundo. Acrescentar a referência às Comunidades Portuguesas teve um claro propósito de sarar as feridas do império perdido. A soberania física confina-se a um pequeno território, mas há em todos os continentes uma sementeira de alma portuguesa, e não apenas nos povos a quem deixámos a língua e que são muitos. As Comunidades Portuguesas são a sobrevivência simbólica do império. Entenda-se aqui "império" não no sentido de superioridade mas da pura transculturalidade que implica o enriquecimento recíproco e a não subserviência de nenhuma das partes.
Nestes tempos de crise é normal ressurgirem as saudades da soberania que os nossos antepassados à força conquistaram e de que a nossa geração pacificamente abdicou em favor da partilha e da corresponsabilidade dos povos.
Parece-me que um espírito lúcido não confunde a partilha de soberania com a perda da identidade portuguesa, a que podemos chamar a Portugalidade.
Mas o que é a identidade portuguesa? Ou a alma portuguesa? Ou o génio português?
Há quem tente colar estereótipos às identidades nacionais. Haveria marcas de caráter, positivas e negativas, específicas de cada povo. Nós, portugueses, seríamos desorganizados, improdutivos e gastadores como está implícito no memorandum da troika. E ainda lamechas e pacientes, como contraditoriamente nos pinta o primeiro-ministro.
Em minha opinião, alinhar a identidade nacional por um perfil de caráter não é apenas inapropriado; é também perigoso. É por esse caminho que se ressuscitam os projetos de purificação da nação, hoje presentes nos partidos neo-nazis que se auto-intitulam nacionalistas. É por esse caminho que se alimenta o racismo e a xenofobia. É por esse caminho que se realizam as profecias de perpetuação dos traços negativos.
A portugalidade é um estado de espírito, é uma emoção, é uma vivência. É o sentimento de pertença a uma comunidade. É o orgulho pelo sucesso dos nacionais e a tristeza pelas suas derrotas e perdas. É o orgulho pelos nossos monumentos e paisagens e o empenhamento na sua preservação. É o orgulho da nossa história e o reconhecimento das suas páginas negras para que não se repitam. É o olhar complacente sobre a nossa cultura e tradições e o esforço por integrá-las nas transformações sociais em curso. É a crítica acérrima dos nossos erros presentes e o contributo construtivo para a sua superação.
A portugalidade não supõe unanimidade de gostos e de interpretações.
Por exemplo, não gosto de pin's da bandeira nacional na lapela, mas isso não me torna nem mais nem menos português do que os seus portadores.
Não gosto da sanha guerreira do nosso hino, especialmente no seu refrão, mas aceito o alcance simbólico do apelo "às armas", ao lembrar o contexto de humilhação nacional em que o hino foi criado.
Gosto que o Dia Nacional esteja associado à memória do grande poeta que se tornou uma espécie de pai da portugalidade. (Embora também fosse aceitável ser, como já foi, o 1º Dezembro, data da recuperação da independência, agora relegada para o esquecimento).
Gosto da sobriedade com que em geral exibimos a bandeira, que me parece um sinal da maturidade da nossa portugalidade. Está interiorizada, dispensa exibicionismos.
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