O futebol não move só multidões de espectadores. Move também um batalhão sem fim de comentadores de curiosas proveniências.
Há os desempregados ou retirados da atividade: jogadores, treinadores e árbitros. Geralmente são um desastre na converseta, o que se lhes perdoa já que a arte deles mora no terreno de jogo.
Há os jornalistas do ramo. Um corpo especial de profissionais, misto de analistas, cronistas sociais e professores de moral.
Há uns ilustres da chamada "sociedade civil": políticos, empresários, profissionais de nome feito, gente que alegremente abdica de falar do que sabe para dar largas à sua paixão futebolística e clubística.
Por cada 90 minutos dum dérbi são-nos oferecidas dezenas de horas de "análises" e controvérsias, e páginas sem fim de imprensa "especializada".
Quando as competições clubísticas se apagam para entrar em campo a seleção nacional, há um código implícito de conduta que obriga todos estes comentadores a tratarem a "equipa de todos nós" com a mesma devoção que reservam ao seu clube privativo.
Perante o unanimismo das crenças e das esperanças, as imensas horas dos media acabam por atafulhar-se com o folclore dos adeptos anónimos que os mesmos media promovem e reportam.
Uma polemicazinha é uma bênção divina nesta monotonia do unanimismo bem pensante. E a polémica veio pela voz do glorioso treinador emigrante Manuel José.
A preparação da seleção nacional transformou-se num circo, parece um Big Brother - disse ele.
Destapada a panela, logo outros cavalgaram a onda.
- E os custos colossais da comitiva?! E o exibicionismo bacoco dos carrões dos craques?!
- Que blasfémia! - defenderam-se os jogadores. Fazemos o que nos mandam, sacrificamo-nos pela nação!
- Que falta de respeito! - barafustaram os da Federação. Os críticos são os inimigos públicos que pretendem desmoralizar a equipa. E nem sequer é legítimo falarem de despesismo porque "nenhum português vai gastar um cêntimo (com a seleção). Este
dinheiro é proveniente da UEFA, e vai
entrar nos cofres do Estado por via dos impostos (de quem o recebe)".
Esta argumentação não é original. É um plágio descarado do que disse o Catroga quando o criticaram pelas centenas de milhares que ganha na EDP.
Confirma-se assim que faz escola uma nova teoria da liberdade de expressão. Apenas temos direito de criticar aquilo e aqueles que pagamos.
É urgente introduzir essa emenda na Constituição. E aprendermos a calar a boca quando virmos os esbanjamentos e as acumulações despudoradas dos grandes senhores do mundo. Porque os deuses são melindrosos.
Feito o desabafo, deixem-me entrar na onda. A poucas horas do jogo com a Alemanha, junto-me ao coro unânime dos incondicionais e dos críticos: dêem-nos uma vitória, rapazes!
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