Cheguei à idade dos avós, embora ainda sem o proveito de o ser.
Uma boa parte dos meus amigos não consegue alimentar dez minutos de conversa sem tropeçar na sombra dos netos. Netos nascituros, netos bebés, netos na escola. Netos espertos, netos birrentos, netos lindos, netos mimados, netos fenomenais...
Por vezes a narrativa é ilustrada com fotos devotadamente conservadas na carteira ou remetidas por e-mail.
Se mostro alguma impaciência com tanta intromissão comunicacional das inocentes crianças logo apanho a desconsolada reprimenda: Quando chegar a tua vez é que vais perceber...
Mas isto são apenas preliminares. Se avanço uma sugestão de encontro, de passeio, de quebra de rotina, logo se desenha uma luta titânica contra a sobrecarregada agenda avoenga (se o adjetivo é impróprio vou apropriá-lo):
- A essa hora não, que tenho de ir buscar o neto ao infantário;
- Nesse dia não que a neta fica cá em casa;
- Às segundas nunca, é o dia de reunião da minha filha, não tem hora para vir buscar a criança;
- Às quartas nem pensar, é o dia de formação do meu genro;
- Esta semana não, porque o neto está adoentado e só quer estar cá em casa.
E eu a resmungar de tanta prisão e a receber de volta a recriminação: Tu não entendes; perdoo-te porque ainda não experimentaste.
Sou assim obrigado a constatar que tais amigos se conluiaram para me ministrarem um curso de preparação para avô, que não estou a safar-me na parte teórica e me fazem o favor de acreditar no estágio.
Ora eu só tive uma escola de avô. Foi a minha experiência de neto. Neto, com umas dezenas de irmãos e de primos, de uma única avó. Os outros avós já tinham morrido quando eu nasci.
A minha avó vivia numa casinha autónoma colada à da minha tia mais velha, que não tinha filhos. Explicaram-me que a avó mandou fazer essa casa quando enviuvou para não preocupar os filhos na sua velha casa isolada.
Nós éramos os netos mais próximos, a menos de 100 metros.
Saudávamo-la nas frequentes vezes que a víamos mas só lhe batíamos à porta a mando dos nossos pais, para lhe levar alguma coisa ou dar-lhe um recado.
Em dias indeterminados ela vinha a nossa casa, sentava-se na cozinha e a minha mãe parava toda a agenda exterior para estar perto dela. Interessava-se por cada um e achávamos um privilégio responder-lhe sobre a escola e os nossos outros interesses.
Por fim abria uma saquinha e fazia a distribuição de línguas-de-gato, figos secos ou rebuçados.
Raramente comia connosco. Penso eu hoje que para não interferir na nossa intimidade. Porque nós estávamos felizes, mas não estávamos à vontade. O clima era de rigoroso respeito.
Os meus primos, que viviam a um, dois ou quatro quilómetros, vinham às vezes visitá-la. Ainda hoje recordam a inveja que tinham de nós estarmos tão perto dela.
Quando ela morreu, aos 90 anos (tinha eu 22), foi como se se fechasse uma época da nossa história.
É evidente o contraste entre a minha escola de neto e a actualidade acima relatada.
A minha avó era uma matriarca incontestada e incontestável. Nunca a ouvi levantar a voz nem alguém levantar a voz para ela. As dezenas de pessoas que constituíam a sua descendência tinham como um critério de conduta serem-lhe agradáveis.
Hoje estes minoritários netos têm a seus pés uma pequena multidão de dois pais, quatro avós, às vezes ainda tios e bisavós, disputando o favor de um sorriso e o privilégio de lhes satisfazerem os soberanos desejos. Com dois ou três anos já têm o caminho livre para se tornarem uns pequenos imperadores e mestres da manipulação.
Por mim, não serei certamente a figura hierática da minha avó, tributária dos rígidos padrões autoritários da época, mas não me tornarei um substituto acrítico das funções parentais ou um criado às ordens de filhos e netos.
O meu papel de avô será sempre o de incentivar a presença e a autoridade dos pais para que a criança fortaleça o carácter, desenvolva o equilíbrio emocional e se prepare para os desafios dum mundo cada vez mais complexo.
A minha avó vivia numa casinha autónoma colada à da minha tia mais velha, que não tinha filhos. Explicaram-me que a avó mandou fazer essa casa quando enviuvou para não preocupar os filhos na sua velha casa isolada.
Nós éramos os netos mais próximos, a menos de 100 metros.
Saudávamo-la nas frequentes vezes que a víamos mas só lhe batíamos à porta a mando dos nossos pais, para lhe levar alguma coisa ou dar-lhe um recado.
Em dias indeterminados ela vinha a nossa casa, sentava-se na cozinha e a minha mãe parava toda a agenda exterior para estar perto dela. Interessava-se por cada um e achávamos um privilégio responder-lhe sobre a escola e os nossos outros interesses.
Por fim abria uma saquinha e fazia a distribuição de línguas-de-gato, figos secos ou rebuçados.
Raramente comia connosco. Penso eu hoje que para não interferir na nossa intimidade. Porque nós estávamos felizes, mas não estávamos à vontade. O clima era de rigoroso respeito.
Os meus primos, que viviam a um, dois ou quatro quilómetros, vinham às vezes visitá-la. Ainda hoje recordam a inveja que tinham de nós estarmos tão perto dela.
Quando ela morreu, aos 90 anos (tinha eu 22), foi como se se fechasse uma época da nossa história.
É evidente o contraste entre a minha escola de neto e a actualidade acima relatada.
Hoje estes minoritários netos têm a seus pés uma pequena multidão de dois pais, quatro avós, às vezes ainda tios e bisavós, disputando o favor de um sorriso e o privilégio de lhes satisfazerem os soberanos desejos. Com dois ou três anos já têm o caminho livre para se tornarem uns pequenos imperadores e mestres da manipulação.
Por mim, não serei certamente a figura hierática da minha avó, tributária dos rígidos padrões autoritários da época, mas não me tornarei um substituto acrítico das funções parentais ou um criado às ordens de filhos e netos.
O meu papel de avô será sempre o de incentivar a presença e a autoridade dos pais para que a criança fortaleça o carácter, desenvolva o equilíbrio emocional e se prepare para os desafios dum mundo cada vez mais complexo.
1 comentário:
Uma vez li que os avós eram "pais com açucar" e confesso que gostei da expressão. Talvez porque eu tive uns avós assim....
Penso que, por mais tarde que venha essa experiência, aqueles que têm boas recordações e referências dos seus, se-lo-ão também. O tempo o dirá...
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