"Quando eles estavam ali (em Belém), completaram-se os dias de ela dar à luz, e deu à luz o seu filho primogénito e envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura porque não havia lugar para eles na hospedaria" (Lucas, 2, 6-7).
Lucas, companheiro do apóstolo Paulo na fundação de comunidades cristãs nas cidades do Mediterrâneo Oriental, é o único evangelista que tem uma narrativa do nascimento de Jesus.
José e Maria, que não são pobres, deslocam-se a Belém por imposição legal e enfrentam o termo da gravidez sem encontrarem um lugar para se hospedarem. O relato é tão aberto que deixa um enorme espaço para a interpretação.
Prefiro pensar que ele quis advertir os crentes para a facilidade com que se fabricam exclusões.
Aqui deixo a minha tentativa de actualização do pensamento de Lucas.
José e Maria, que não são pobres, deslocam-se a Belém por imposição legal e enfrentam o termo da gravidez sem encontrarem um lugar para se hospedarem. O relato é tão aberto que deixa um enorme espaço para a interpretação.
Prefiro pensar que ele quis advertir os crentes para a facilidade com que se fabricam exclusões.
Aqui deixo a minha tentativa de actualização do pensamento de Lucas.
José e Maria empurram a velha porta, daquela casa abandonada na baixa da cidade.
Da porta do lado salta para o passeio uma mulher furiosa:
Olhem-me estes! Querem-se meter aqui com ela neste estado! E depois é mais uma fogueirinha, porque as ganzas não tapam frio, e lá fica a minha casa num braseiro!
Desimpeçam-me a vista! Para fazer a criança não tiveram frio! Agora desenrasquem-se! Se morrer no parto, é menos um para o rendimento mínimo!
José e Maria estendem os cobertores na praceta, junto aos calores do exaustor da cozinha dum restaurante de classe.
O chefe de mesa vem a correr esbaforido:
Era o que faltava! Logo na noite de Natal, com uma ceia espectacular, posso lá consentir à porta esta cena degradante!
José e Maria vêm da estrada sinuosa e empurram a porta onde se lê: Turismo Rural.
Têm dinheiro? Claro que não! Por acaso não tiveram a luminosa ideia de virem aqui parir o filho no meu hotel e depois porem-se na alheta!
Desapareçam, isto não é a santa casa!...
José e Maria aproximam-se do grande barracão solitário e abrem cautelosamente a porta de zinco. As ovelhas agitam-se ao sentirem passos que não os do pastor.
É um bom lugar, Maria! O calor do gado protege-nos.
À luz ténue duma lâmpada, ajeitam os fardos de palha e estendem os cobertores.
Ao romper do dia ouviram o ronco duma carrinha e o pastor entrou...
Bastou-lhe um breve olhar para perceber tudo. Pega no telemóvel e grita: Marta, acende a lareira e prepara tudo que eu já vou a caminho. Depois mato um cabrito. Estás a ver?! Temos companhia para o almoço de Natal!
Sem comentários:
Enviar um comentário