quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A síndrome de Vichy


Quando temos a carteira a arder e a economia do país a estourar, a classe política conseguiu encher o espaço mediático do dia a controverter um discurso de almoço de Natal dum deputado com os seus eleitores.

O deputado Pedro Santos deve a sua transitória fama a frases como as seguintes, gravadas por uma rádio local:

Não tenho qualquer problema (...) de o dizer. Porque em primeiro lugar, primeiro do que os banqueiros alemães ou os banqueiros franceses, estão os portugueses. Estou-me marimbando para o banco alemão que emprestou dinheiro a Portugal nas condições em que emprestou.

O deputado desenvolveu depois a ideia de que se deve ameaçar os credores com o incumprimento para forçar a alteração das condições do empréstimo.

Estou estarrecido com a barulheira política que estas palavras provocaram. Eu dizia-o a brincar, mas agora estou no sério: chegámos a Vichy. As exigências de retratação que ouvi hoje no Parlamento fizeram-me temer que dentro em breve se reclame a criação da milícia de Vichy destinada a dar caça aos dissidentes do "ocupante".

Por agora ainda escrevo "ocupante" entre aspas. Mas não sei por quanto tempo. Afinal a factura que temos de pagar pela visitinha periódica de controlo dos três caras de pau da troika ascende a umas centenas de milhões anuais. Não é barata a ocupação. Sem contar, claro, com os juros da agiotagem que nos impõem.

A síndrome de Vichy obriga-nos a dizer, respeitosamente e de chapéu na mão: obrigado pela ajuda.

Enquanto estou a escrever, ouço nas notícias que o Sr. Jens Weidmann, presidente do Banco Central Alemão, "comparou hoje os países endividados às pessoas que têm problemas de dependência alcoólica".

Que mais é preciso para que os apóstolos do respeitinho percebam com quem estão a lidar?

Se não fosse a síndrome de Vichy, saberíamos responder-lhe que a obstinação deles em impor-nos juros imorais para financiarem o seu próprio défice público só é comparável à dependência de drogas duras.



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