sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

No olho da crise (4): Os moralistas de serviço


A troika ocupante vai-nos queimando em fogo lento, ditando uma a uma as apregoadas reformas estruturais que nos hão-de levar à consciencialização dos nossos pecados e à pobreza que nos compete, como povo preguiçoso que somos.

A vaga de entusiasmo dos comentadores instituídos abre agora umas tímidas brechas. Mas os argumentos dos moralistas de serviço permanecem os mesmos.


Há alguns moralistas particularmente enternecedores.

É o caso dos banqueiros.

Aquelas carinhas rechonchudas que durante longos e felizes anos nos assediaram com todos os truques possíveis para nos convencerem a tomar empréstimos para casas, carros, viagens e tudo o mais, são as mesmas que agora, com um ar grave, nos vêm censurar por vivermos acima das nossas possibilidades e sermos os vergonhosos culpados do défice externo. Aquelas carinhas que, de mãos dadas com as construtoras, assediaram todos os governos para mais e mais obras públicas, vêm agora lamentar compungidamente que o défice público tenha disparado para níveis incomportáveis.

É o caso dos economistas.

Aqueles sábios, armados de números e gráficos, que nos convenceram que o euro era a nossa prosperidade e o livre comércio mundial a nossa felicidade, vêm agora confessar que a nossa produtividade é baixa e que os nossos empresários são uns nabos que não sabem vender lá fora. E que viva a troika que nos veio dizer isso e nos obriga a trabalhar mais pelo mesmo salário e nos subtrai o dinheiro com mais impostos, para não podermos comprar as porcarias que nos chegam do mundo inteiro.

É o caso dos gestores, privados e públicos.

São aqueles senhores que ganham 5, 10, 20 ou 30 mil euros por mês e vêm muito sabiamente explicar como a troika nos veio abrir os olhos para a nossa desgraça: o custo unitário do trabalho é muito elevado e a nossa competitividade fica de rastos.
Só podem estar a referir-se ao custo unitário do trabalho deles.


É o caso dos políticos.

Durante anos e anos a imagem de marca de qualquer candidato ao governo ou às autarquias era a promessa de mais obras, mais casas para os pobres e remediados, mais piscinas e pavilhões, mais subsídios às associações, mais festas e foguetórios. Hoje nem acreditamos no que vemos. Vêm com o seu ar de tartufo dizer-nos que passou o tempo das ilusões e só têm a verdade para nos dizer: sacrifiquem-se, empobreçam, apertem o cinto, mudem de vida.

Para quê? Sabem para quê? Pois eles sabem. Dizem que é para voltarmos à prosperidade. Não entenderam? Eu também não. Depois de dois ou três aninhos a empobrecer, com recessão e mais recessão, desemprego e mais desemprego, voltaremos a ser ricos... Ai que magia!






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