Na minha adolescência, nos anos 50, tive uma esmerada educação católica, com todos os ingredientes ainda hoje em uso, embora em doses mais suaves.
Para simplificar direi que a vida perfeita nos é apresentada em dois compartimentos praticamente incomunicantes, por muito que nos queiram convencer do contrário. Um compartimento é inspirado no Evangelho, e valoriza o amor fraterno, o serviço aos outros, a transformação positiva do mundo. O outro compartimento, com inspirações espiritualistas de diversas fontes greco-romanas, valoriza o alheamento do mundo e uma postura autista de pretensa comunicação directa com Deus. Nos retiros, ou exercícios espirituais, um pregador batalhava arduamente, um ou vários dias, para nos levar àquele estado supremo de desprendimento do mundo e de submissão incondicional à vontade de Deus devidamente interpretada e validada pelos nossos superiores e diretores espirituais. A nossa suprema ambição devia ser tornarmo-nos uma bola de barro pronta a ser moldada pelo divino oleiro.
Como o pregador sabe que o nosso ego e o nosso corpo não se conformam com a desvalorização programada, trata de nos incentivar à penitência e à oração. A penitência é o sofrimento procurado, com vista ao domínio do corpo e à reparação do desgosto causado a Deus pelos nossos pecados. A oração é a comunicação direta com Deus, dando-lhe conta de quanto estamos empenhados em fazer a sua vontade e esperamos que Ele não nos penalize por não o conseguirmos completamente.
Porque é que estou aqui a resumir tão esforçadamente uma longa catequese?
Simplesmente porque esta crise me fez estranhamente viajar até esses tempos.
Mudam-se os actores e o cenário, há adaptações nas personagens, mas o guião é incrivelmente decalcado.
A penitência chama-se agora austeridade. Os pecados foram e são muitos e os corpos estão carregados de vícios. É necessário empobrecer, trabalhar mais pelo mesmo salário, pagar mais impostos.
Pregadores de todos os feitios - políticos, empresários, banqueiros, economistas - cercam-nos impiedosamente naquele duplo registo dos mais brilhantes padres: ou nos ameaçam com o inferno da bancarrota se não nos convertemos e mudarmos de vida, ou nos dizem que estamos a ser uns meninos bem comportados que em devido tempo receberemos a recompensa duma nova felicidade.
Da penitência estamos conversados. Mas a oração? A quem pediremos perdão e misericórdia? Tal como na Igreja, também aqui a divindade está escondida e os seus desígnios são insondáveis. O seu nome é Mercados. nunca ninguém viu o seu rosto, e a única forma de nos acercarmos deles sem os irritarmos é ouvirmos atentamente os seus missionários - esses todos que acima citei. Eles nos dizem compungidamente que ainda é muito cedo para obtermos misericórdia.
Quando estivermos purificados, eles cuidarão de pedir em nosso nome o alívio das penas, por intercessão da grande sacerdotisa Ângela (que nome tão contrário ao objecto).
1 comentário:
Genial!
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